Tuesday, January 19, 2010

Sherlock Holmes


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado no Jornal do Commercio

Logo no início de Sherlock Holmes (EUA/Ing, 2009), nos lembramos do termo ‘superstar’, atualmente ilustrado por gente como Johnnie Depp e Robert Downey Jr. Não são atores que preparam-se para fazer filmes, mas são os filmes que encaixam-se neles. Downey Jr, por exemplo, nos oferece um novo Sherlock para esta reinterpretação dos escritos de Arthur Conan Doyle. Os resultados, ligeiramente divertidos, mas esbaforidos, deixam Downey intacto.

Ele empresta ao filme seu estilo cínico, que sugere um alegre bafo de álcool, como já fizera no divertido Homem de Ferro (o II será lançado em alguns meses). Sua presença nesse Sherlock Holmes certamente explica as bilheterias nas alturas que o filme vem tendo nos cinemas do mundo.

O filme é dirigido por Guy Ritchie, cineasta surgido nos anos 90 com uma série irritante de filmes ingleses sobre gangsteres - Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998), Snatch (2000) e, recentemente, Rock’n’rolla (2008).

Espertinhos, ansiosos na montagem e na câmera, sempre misturando atos pretensamente humorísticos de violência, o cinema de Ritchie encaixa-se na melancólica estante dedicada aos sub-Tarantinos. Foi também casado com Madonna.

Esse Sherlock Holmes, pelo menos, livra Ritchie da triste sina de ser sub-QT para transformar-se em apenas mais um administrador contratado de cenas de ação do moderno cinema de mercado. Seu trabalho, ao que parece, poderia ter sido feito por um software desenvolvido para cuspir filmes de multiplex. Sorte dele ter Downey Jr. na frente da câmera.

Ação, aliás, é o que chama a atenção. Até agora, Sherlock Holmes era um homem de meia idade, nos livros e adaptações para o cinema, um adepto do raciocínio. Na talvez melhor encarnação de Holmes no cinema – The Seven Percent Solution (1976), de Herbert Ross – o amigo Watson ajudava Holmes a superar seu vício por cocaína com a ajuda de Sigmund Freud. O filme parecia interessado no personagem, que é e sempre foi ótimo.

Nos escritos de Arthur Conan Doyle, há menção de que Holmes seria bom de briga e hábil na esgrima, mas há pouca ação nesse sentido. Não nessa versão moderna, que pega pela palavra o aspecto ‘bom de briga’ de Sherlock.

O produtor aqui é o Mr-pipoco por excelência, Joel Silver. Produziu Comando Para Matar (1985), Duro de Matar (1988), Máquinas Mortíferas e os Matrix. Com Guy Ritchie na direção, a Londres do final do século 19 vira cenário para um pouco de trama pontuada a cada 10 minutos por uma briga/perseguição/explosão. Inicialmente o filme promete, mas depois percebemos que a diversão se dilui no cansaço geral, um pouco como num filme pornográfico com historinha.

A trama lembra a última grande adaptação de Holmes para o cinema, o muito simpático O Enigma da Pirâmide (Young Sherlock Holmes, 1985), de Barry Levinson, que adolescentes dos anos 80 devem lembrar com certo carinho.

Esse novo Sherlock Holmes também tem na maçonaria londrina o seu antro de vilania, e um mistério que finalmente intriga o detetive. Lord Blackwood (Mark Strong) é um louco pelo poder que dribla a forca depois de ser julgado culpado pela morte de mulheres num ritual de bruxaria. Declarado morto pelo médico John Watson (Jude Law), o caso vira questão de honra para Sherlock e seu amigo, ridicularizado por um defunto que não morreu.

O inglês Law faz a versão irritada de Watson, e tem presença forte no filme. Está sempre questionando Holmes, que humilhou a noiva de Watson com seus poderes de observação que, embora corretos, não captam histórias completas.

Vibrações homo entre os dois continuam possíveis para espectadores interessados, mas não parece ser o desejo desse filme. Rachel Macadams é trazida para apimentar a vida amorosa do detetive com missão misteriosa.

De qualquer forma, é curioso perceber que, no cinema contemporâneo, uma nova interpretação de Sherlock Holmes usa o seu raciocínio clássico para, principalmente, quebrar a cara dos outros, a imagem assinatura do filme, várias vezes.

Nu da cintura pra cima e de punhos cerrados, o nosso detetive reflete sobre quantas costelas irá fraturar no inimigo, como irá deslocar sua mandíbula e sobre as chances de o fígado doer mais, ou menos. Se fosse uma piada, seria engraçado, mas é o verdadeiro estado de espírito dos produtos de mercado hoje. Esperemos agora um Hercule Poirot super bombadão.

Filme visto com projeção escura na sala 1 do UCI Boa Viagem, Recife, Janeiro 2010.

1 comment:

Carlos Eduardo said...

definitivamente a pior adaptação de sherlock para o cinema.