Thursday, January 21, 2010

Up in the Air


por Kleber Mendonça Filho
cinemascopio@gmail.com

Texto originalmente publicado no Jornal do Commercio

O movimento por esforço repetido de ver tanta comédia romântica do inferno, filmes de horror adolescentes e adaptações genéricas de super heróis, nos leva a admirar obras mais sensatas sobre gente, como Amor Sem Escalas (Up in the Air, EUA, 2009). O filme de Jason Reitman (Juno) não deveria ser uma raridade, mas é. Os personagens e as situações são de interesse, o tom é crítico, mas sem julgamentos.

O filme é uma das possibilidades da atual temporada de Oscar. No último domingo, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Roteiro Adaptado. É uma obra interessante, mesmo com a já muito aguardada queda final, certeza matemática nos filmes bem intencionados de Hollywood.

O interesse do filme é exatamente contrapor noções básicas de humanidade e o sistema vigente (desumano) que faz a sociedade existir. É um grande tema, fértil desde Tempos Modernos (1936), de Chaplin, e presente também com grande força no recente filme romeno Policial Adjetivo (2009), de Corneliu Porumboiu.

O personagem central de Amor Sem Escalas chama-se Ryan (George Clooney), um executivo. Ryan é um aprofundamento do homem moderno de Clube da Luta (1999), adepto de refeições e amigos descartáveis.

Portador de todo tipo de cartão diamante da American Airlines, Hertz, Rent a Car, hotéis e VIP lounges, Ryan é um expert da viagem, sua mala de rodinha um primor de organização. O terno também cai super bem em Clooney.

O trabalho de Ryan beira o fúnebre. Viaja pelo país demitindo funcionários de grandes empresas, homens e mulheres jovens ou de meia idade, alguns quase aposentados, que ouvem da sua conversa estudada a novidade: estão na rua.

Esse quarentão não quer ter uma casa (seu ap é um cubículo estéril e branco), esposa ou filhos, e sente-se à vontade nas dezenas de aeroportos americanos. Desde Prenda-me Se For Capaz (Catch Me If You Can, 2002), de Steven Spielberg, que o fascinante (e deprimente) mundo dos aeroportos não era filmado tão intimamente.

Entra na história Natalie (Anna Kendrick), uma dessas jovens profissionais recém formadas, com tailleurzinho padrão, cabelo preso e linguagem corporal de andróide. É o tipo de funcionário gerado pelo mercado, já visível no Brasil via globalização. Natalie parece cria daquela última palavra nesse tipo de gente, a garota de Eleição (1999), de Alexander Payne.

Para a alegria do chefe dela e de Ryan (Jason Bateman), ela propõe um sistema revolucionário de teleconferência via net que irá economizar dinheiro em passagens e hotéis. É a demissão à distancia, com webcams.

Ryan ainda acredita no golpe de misericórdia ao vivo, frente à frente. É um humanista, muito embora o seu discurso ensaiado tenha pouco do que normalmente acharíamos humano. Talvez ele queira mesmo é continuar viajando.

O filme desdobra-se numa série de viagens que Ryan faz com Natalie para mostrar-lhe a realidade do trabalho. Natalie, oca, sem experiências de vida, revela-se personagem interessante o suficiente para abrir os olhos, aos poucos.

Há também um caso de Ryan na pessoa de Alex (Vera Farmiga, figura), sua alma gêmea no mundo dos aeroportos, a personagem mais intrigante do filme. Diferente de Ryan, ela parece viver pelo menos três vidas, paralelamente. Lamentavelmente, uma revelação sobre Alex é uma asneira narrativa como execução que permanece um mistério para esse espectador de como ainda está no filme.

Mesmo assim, há coisas melhores. A cena em que os três, no enfado de uma noite de semana, em algum hotel distante, entram de penetras numa festa de empresas de TI é o tipo de detalhe que dá ao filme seu diferencial. A desculpa dos dois mais velhos para a (inicialmente) horrorizada Natalie revela muito sobre a sociedade hoje: “são empresas de tecnologia, eles têm muita grana...”

Dotado de uma abertura linda, que transmite o estado de espírito do personagem (e de qualquer um que viaja muito de avião), Amor Sem Escalas dirige-se para um final dúbio que sugere manipulação e medo de desagradar o público. Antes das palavras finais fieis à tristeza de Ryan, uma montagem aparentemente sapecada de última hora ressalta (para o público médio) a importância da família e de estar casado, a maior nota errada de um filme, em grande parte, honesto.

Filme visto no Plaza Casa Forte, Recife, Janeiro 2010

6 comments:

intratecal said...

honesto mesmo.

esse filme foge de quase todos os clichês possíveis e isso é sempre digno de aplausos.

clooney se destacou bastante aqui.

CinemaScópio said...

Tem aquela seq horrorosa onde ele interrompe a palestra, pega um avião e sai todo rapidinho para Chicago. Parece uma sobra do filme que executivos queriam ter feito. Mas no geral, é muito interessante.

Gustavo said...

Mensagem "família é tudo" me incomoda tb, e concordo sobre a cena em que eles entram de penetras, é maravilhosa.

CinemaScópio said...

Essa montagem horrorosa da família não apenas incomoda, mas vc se pergunta de onde ela veio.

Fábio Henrique Carmo said...

Kléber, quanto aos filmes "de aeroporto", Spielberg fez, logo após "Prenda-me Se For Capaz", o "Terminal", também com o Tom Hanks. É inferior tanto a "Prenda-me" quanto a este "Amor Sem Escalas" (título horrendo esse em português), mas também mostra bastante essa paisagem de portões de embarque.

Falando ainda de "Amor Sem Escalas", além de algumas sequências lamentáveis (a que mais me incomodou foi a que ele sai correndo da palestra, além daquela invenção besta e sem congruência com a personagem da Farmiga), há ainda alguma piadas meio que colocadas a machadadas no roteiro (como aquela relativa ao "tamanho" das milhas de Ryan), bem diferente do filme anterior de Reitman, "Juno", onde o humor fluía muito bem.

De qualquer forma, é um bom filme e que merece destaque diante de tantas coisas bobas que passam de costume nos multiplexes.

Flavio said...

Ótima comparação da personagem da Anna Kendrick com a garota de Eleição. Gostei também, mas não tem como não ter a impressão de que poderia ter sido um grande filme, talvez com um diretor mais maduro e audacioso.